São Francisco do Conde, além de ser o segundo maior arrecadador de royalties do petróleo na Bahia, é o segundo município que mais arrecada tributos em geral, com R$ 1,2 bilhão nos seis primeiros meses de 2008, atrás apenas da capital, que contabilizou cerca de R$ 1,9 bilhão no mesmo período, de acordo com a Secretaria da Fazenda do Estado.
Tal situação contribui para que o município apresente o maior PIB per capita do País – mais de R$ 211 mil por habitante em 2005, segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI). Contudo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) revela que, em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), São Francisco do Conde aparece no 4.564º lugar entre os 5.507 municípios brasileiros pesquisados, ficando em 16º na Bahia.
Isso ocorre porque, além dos aspectos econômicos, o IDH contabiliza a expectativa de vida da população, o analfabetismo e as taxas de matrícula em todos os níveis de ensino. E justamente na área da educação o município tem um baixo rendimento.
Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2000, mostram que a população do município acima dos 10 anos apresentava uma taxa de analfabetismo de 15,9%. Já entre os que conseguem estudar, a média de permanência na escola era de apenas cinco anos, fazendo com que 32,5% da população sejam analfabetos funcionais, que conseguem decifrar frases e números básicos, mas têm dificuldade para interpretar textos ou fazer operações matemáticas.
Essa é a realidade da localidade de Roseira, também conhecida como Porto de Brotas, a apenas dois quilômetros da sede do município e a menos de cinco quilômetros da prefeitura. Lá residem cerca de 200 pessoas, distribuídas em 34 casas. Em uma delas, mora Antônio Santos, de 33 anos, que sobrevive dos caranguejos e mariscos que cata no mangue e vende em Salvador.
“Só pude estudar até a 4ª série, então fica difícil encontrar um emprego”, diz, salientando que faz de tudo para que seus quatro filhos tenham mais oportunidades. Para reforçar o orçamento familiar, há cinco anos ele virou o cabeleireiro da comunidade. “Quando falta marisco, dou um jeito no cabelo do povo. O problema é que praticamente todos por aqui vivem do que sai do mangue e, quando a maré está ruim, fica todo mundo sem dinheiro, até mesmo para pagar o corte de cabelo”, brinca.
Infra-estrutura – O secretário de Planejamento e Desenvolvimento de São Francisco do Conde, Alberto Simões, alega que o principal entrave para a educação no município foi a constante troca de prefeitos, decorrente de processos de improbidade administrativa. Contudo, ele afirma que, agora, “as coisas estão no rumo certo”. Simões destaca ainda o empenho da prefeitura em equacionar os problemas de infra-estrutura, principalmente o déficit habitacional.
Nessa questão, Roseira também está na fila de espera. Das 34 casas, menos de dez são de alvenaria e nenhuma possui esgoto ou água encanada. “A gente ainda carrega lata d’água na cabeça e as ‘coisas do banheiro’ jogamos no mato”, afirma Gilmara de Jesus, 38 anos. Segundo ela, seus oito filhos “vivem com verme, mas felizmente não têm doenças mais graves”, diz, lembrando que no não existe telefone público. “Quando uma pessoa fica doente, alguém tem que ir correndo até a cidade pedir socorro”.
Em meio à carência de condições básicas de sobrevivência, os moradores da vila não perdem o senso crítico. O mais velho do lugar, Antônio Serra, de 72 anos, mais conhecido como Seu Bico, lembra que há oito anos cadastraram as famílias para a construção de casas “de bloco”, mas nada foi feito. “O que a gente mais quer saber é onde vai parar o dinheiro da Petrobras”, afirma o aposentado pela colônia de pesca, que até hoje se alimenta apenas dos peixes que pega.