O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome realizará um censo dos moradores de rua no País, com exceção de Belo Horizonte, Recife e São Paulo, cidades cujas Prefeituras já procederam ao completo levantamento de dados relacionados a essa constrangedora realidade.
Em Fortaleza, existem divergências quanto ao exato número dos moradores em logradouros públicos. Um dado bastante óbvio é que grande parte deles é constituída por crianças e adolescentes. Há pouco meses, foi constatado que cerca de quinhentos menores de idade habitam as ruas da Capital, a maioria deles usando drogas e sobrevivendo de furtos e roubos, ou da caridade pública. Entre os dependentes químicos, a maior parte utiliza a cola de sapateiro às vezes ostensivamente.
A cada dia se afigura mais atemorizante o quadro de inúmeras pequenas gangues formadas por menores de idade, quase sempre andrajosos e apresentando deplorável estado físico, a perambularem, sobretudo, pelo Centro da cidade. Além das ruas e praças centrais, eles também estão na Avenida Beira-Mar, nos terminais de transporte coletivo e em outros locais com maior concentração de transeuntes. Agora, passaram também a invadir, de modo ameaçador, os ônibus estacionados para apanhar passageiros em paradas localizadas no perímetro central.
A impressão que ressalta, apesar de tudo que se tem falado a respeito de tão persistente problema, é que nenhuma providência tomada teve abrangência e eficácia suficientes para conter essa chaga da desigualdade social.
Pelo contrário, os grupos de menores abandonados parecem haver aumentado, além de se terem tornado mais agressivos, como no caso da invasão dos coletivos nos horários de pique, passando a idéia à população indefesa de que nenhum procedimento objetivo foi posto em prática no sentido de resolver a questão.
Afirmam os dirigentes da Regulamentação da Proteção Social Especial do Ministério do Desenvolvimento Social que o levantamento a ser realizado servirá para elaborar, a partir dos resultados obtidos, projetos e programas sociais voltados para os moradores de rua, tencionando abranger todas as faixas etárias.
A própria entidade reconhece que, por incrível que possa parecer, até hoje inexistem projetos públicos específicos para esse segmento populacional, que não se beneficia do Bolsa Família ou de qualquer outro programa de inclusão. Apenas algumas organizações não-governamentais, entidades beneficentes, ou grupos isolados de pessoas solidárias, atendem a algumas das mínimas necessidades daqueles que vivem sob viadutos e marquises de edifícios.
Espera-se que o censo em questão, voltado para um dos aspectos mais sombrios da realidade brasileira, não resulte apenas em um amontoado de inócua papelada, ou em declarações oficiais de circunstância, jamais consumadas. Torna-se necessário fazer vigorarem, na prática, os elementos de uma decisão política que objetive, a curto prazo, tornar menos chocante um aspecto deprimente do cotidiano das grandes cidades.